CERI TOH

Ceri toh quer dizer Seridó na língua indígena. O historiador Câmara Cascudo escreveu que Ceri toh significa sem folhagem, pouca folhagem, pouca sombra ou cobertura vegetal, segundo Coriolano de Medeiros...Também ouvi de meu pai que significa paisagem desnuda e gosto mais dessa expressão.
Segundo os judeus significa "refúgio Dele", originada da palavra hebraica she ´eritó, assemelhando-se muito com a palavra Seridó.
De qualquer forma, esta palavra está impregnada em mim desde tempos imemoriais...

sábado, 7 de maio de 2011

CARTA PARA ELA


Mamãe,

Amanhã, dia das mães nos reuniríamos todos em casa. Café da manhã regado a conversas bobas e muitas risadas. Sua presença, imperceptível, fazia toda a diferença. O problema é que nem dávamos conta disso. Preocupação, só com papai que sempre teve problemas cardíacos. Vivíamos "preparados" para quando ele partisse. Deus tinha me dado a oportunidade de passar o último dia das mães com a senhora. No domingo, havíamos ido à missa das mães e a senhora e papai renovaram os votos do matrimônio...Como nosso Deus é bondoso e amoroso por nós! Não sabíamos que a senhora partiria quatro dias depois. Lembro que a senhora se confessou e comungou. Renovou os votos consagrados do matrimônio com papai. Depois ficou vermelha com o beijo na boca que ele te deu na nossa frente, lembra mãe? Deus te preparou para a partida não foi mãe?
Pois é, parece que foi ontem e no entanto já partiste há dezoito anos...
Na quarta feira, dia 13 de maio, dia de Nossa Senhora de Fátima, almoçávamos juntos...A senhora ralhou comigo porque eu não comia nada (lembro que eu estava suspeitando de estar grávida) e eu reclamei que a senhora também não podia estar comendo toda aquela comida com tanta gordura e sal...a senhora riu e desconversou...depois o desepero com sua dor de cabeça, a pressão nas alturas, os médicos, a ambulância, o hospital, a UTI...não falavas coisa com coisa e eu nem sei de mais detalhes e nem quero saber, o que sei é que desde aquele dia me dói não ter te dito sempre e em todos os momentos do meu amor pela senhora. Do quanto a admirava. Do quanto queria ser alguém na vida pra senhora sentir orgulho de mim...
A sua ausência é um espinho de algaroba nas nossas vidas, uma dor doce e profunda, um mistério de soluços e ausências...um eterno caminhar sem ter pra quem, uma luta sem ter mais sentido, mas a senhora me criou forte e corajosa.
Hoje e amanhã, meu coração relebra o filme da sua partida. E chora, doído de saudade. Mas não é revolta mãe, é saudade do aconchego, do seu cheiro, do seu carinho, de vê-la tricotando, assistindo a novela, tomando uma cervejinha conosco ou fazendo o café da tarde, onde reunia filhos, amigos, vizinhos e quem chegasse na hora. Mãe, com sua vida simples e humilde, nos ensinaste a sermos bons e tolerantes, a sermos caridosos e gentis com os outros. Obrigada por tudo, por todo seu amor e por todo seu esforço para dar conta dos talentos que Deus te deu para cuidar aqui na terra, nós, teus filhos. Não se perdeu nenhum mãe, obrigada por isso!
Que nesse dia das mães a senhora sinta ai no Céu todo o nosso amor.
Que Deus te guarde sempre...
Até qualquer dia desses...
bjos Mãe querida!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010




Não, não venho de família abastarda e de nome bunito. Nem sou fia de algum coroné da região ou barão canavieiro. Sou uma simples Maria da Silva. Nome comum, qui tem chero de vida, de suor e lida. Nasci numa noite escura e dona Tereza, parteira de casa em casa, me ajudou a atravessar as carne escura da minha mãe. Desde então me sinto esquisita. De pá virada. Doida de pedra, como dizem por ai...
Só porque gosto de andar à noite, sentindo o vento frio me bater no rosto? Só porque falo com os bichos e as plantas quando passeio ao ridor da vazante? Conheço gente com custume mais isquisito qui o meu e ninguém fala nada.
Dona Gertrudes, filha do Capitão Nelson anda peladinha dentro de casa em noites de lua cheia e ninguém diz nada. Mas eu sei qui é por queimar demais pelo vaqueiro Justino, um negão de dentes brancos e pele brilhosa qui trabalha como pião nas terras do capitão. O pai nem sonha qui é purisso. Já mandou chamar até doutor da capitá pra tratar do fogo da filha...Se eu fosse esse doutor, acabava agorinha mesmo com essa doença dela. Mas é filha do Capitão Nelson, ninguém fala nada.
Dona Florinda, mulher do delegado, tem mania de reza e de vela. Todos os dia tem qui ir à igreja acender vela prus defuntos e respingar água benta na testa. Não sem antes passar pela barbearia de Seu Godofredo. Sempre faz a caridade de levar um bolim de cenoura pro pobe coitado que não tem mar ninguém pur ele nesse mundo. Todos os dia. Faça sol, faça chuva e ela tá lá, na barbearia do coitado. Dispois, só dispois de comido o bolo, ela vai à igreja pra falar suas oração e acender suas vela. Mas ninguém diz nada purque é mulher do delegado, ninguém diz nada...
Nas arruanças da cidade todo mundo senta nas calçadas à noite para falar da vida alheia. É um chafurdo só. Ainda bem queu nasci nas beiras de açude de seu Lindolfo e daqui nunca sai. Meu pai foi embora inquanto eu ainda era bem piquinininha. Minha mãe dizia qui ele queria fazer coisa feia com ela, coisa do demo e que ela nunca aceitô. Ele se foi dizeno qui ela era feiticêra, qui num era mulher. Depois qui ela morreu, fiquei morando suzinha, suzinha não, eu e Deus.
Entonce fico aqui oiando esse hurizonte cheio de pó e pedra, de silêncio e sulidão. Num quero ser biata, num quero casar, num quero amancebar. Só quero sair purai de noite, na lua cheia, passiano pelos terreiro, ouvindo as curuja, até essa febre baixar. Se alguém acha qui é loucura ou quintura de mulher sozinha, num ligo. Sou filha de Zé ninguém, minha mãe morreu faz tempo, num devo nada a ninguém.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

REENCONTRO


Foi tão bom te reencontrar, tão doce sorver poesia da tua boca e beijos doces dos teus olhos tristes... Perdoe-me pela falta de jeito de amar o mundo. Eu não saberia jamais não me entregar às paixões ou seja lá o nome do que me toma nesse momento. Sei apenas que é tão violento que já me assusto com a possibilidade de destruir-me. Sim,os homens não sabem mais amar uma mulher, mas isso é apenas um detalhe nessa intricada rede de desejos.
Talvez tenha sido teus olhos úmidos de sal que me deixaram assim, em carne viva. Talvez porque a minha ânsia calou-se diante da tempestade que se anunciou e caiu sobre mim. O que é isso que pressinto ser um todo e me deixa dividida em tantas pequenas partes? O que é isso que, lume ou centelha, leva-me somente em direção ao caos?
Talvez não seja lícito falar-te dessa coisa vermelha, que escorre, sanguinolenta, como um cilício a perfurar a carne. Talvez não compreendas que, cedo ou tarde, a dor também há de trespassar-te como um alvo ilícito, pois que tudo que é rubor e face saberá das chagas dessas trevas que alguns dão o nome de amor.
Esta ferocidade, este olho mal-assombrado que me guarda, estas mãos enormes como armadura, levo-os comigo. Sei que não te deixarei nenhum atalho, porque assim será sempre. Assim aconteceu comigo, assim há de acontecer-te. Não haverá um atalho, somente um abismo que agigantar-se-á quanto mais te desesperares para fugires dele.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010


Foi de tirar o fôlego o encontro. Faltou ar, chão, maturidade e aflição. Ele não era mais um menino, via-se em alguns cabelos que teimavam em ficar grisalhos. Mas o sorriso era o mesmo de tanto tempo. Seus olhos disseram a mesma coisa de anos atrás. O reencontro foi duplo. Ela também se reencontrou. Percebeu que havia ficado para trás com ele. Tinha-se perdido mais e tanto que ela não era mais ela, era uma impostora.
Com a boca seca de beijos, com a cara fria de impostora, desejou beijar-lhe a alma, o corpo, o sangue, a sede, a morte. Sim, porque reencontrá-lo foi morrer, morrer e descobrir a verdade. Sendo uma impostora, sendo quem ela não era, tornou-se passível de atos de monstruosidades. Tendo que usar máscaras, ela escondeu o que de mais precioso tinha, usou de artifícios para continuar vivendo.
Salvar-se. Precisava urgentemente se salvar. Seus olhos pediram-lhe socorro, mas ele continuou impassível diante do seu desespero, diante do seu sonho de adolescente que foi, tão constrangida. Amor não existe. Pronunciou essas palavras como sentença de morte. Ela revirou-se toda, procurando uma brecha para salvar-se daquele olhar. Todos os quartos que conheceu na vida estavam vazios. Alguns raros amigos fugiram ao constatarem sua verdade mais íntima. Ela não queria envelhecer jamais. O tempo que durou aquele olhar foi uma eternidade. Sentia-se envolta em chamas, em lençóis de seda, em negros sonhos de amor.
Fez um último esforço e balbuciou um até logo. Ele esquivou-se do beijo e apertou-lhe a mão. Ela ficou a olhar o instante que a separava do abismo que se agigantava diante dela como única proposta de sobrevivência. Tornar-se uma mulher como todas as que se escondem atrás de uma prisão chamada vida normal. Desejou voltar-se e dizer-lhe uma última palavra, tentar marcar um outro encontro mais tranqüilo, onde ela, recuperada do momento, pudesse lhe falar do seu amor estranho e cego. Com o coração ainda batendo de tanto silêncio e lentidão, procurando as palavras certas para não denunciar seu constrangimento, ela virou-se e o chamou pelo nome. Um nome que soou como sua salvação do tédio, da mesmice, das facas da rotina. Um nome que ficou atravancado na garganta enquanto ele desaparecia na esquina da rua.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010



A lua está gritando no céu. Você não sabe, mas é meu grito. Pedi que gritasse por mim. Perdi minha doçura pelo caminho e tenho que me acostumar com esse meu novo jeito de ser. Ao longo da estrada fui carregando uma palavra aqui, um punhal no olho, uma pedra na mão e não saberia chegar ao território dos candangos sem minhas armadilhas. Caminhar por esses atalhos espinhentos não é tão fácil. Até minha feminilidade ficou espetada num desses pés de xique-xique que encontrei lá na curva do caminho, onde o diabo perdeu as botas. Pois foi lá que perdi minha doçura e nem seu anjo, aquele, das palavras mais doces, foi capaz de achá-la para mim. Já derramei tantas lágrimas que não sou mais capaz de chorar. Dia desses, um anjo diferente, com uma armadura de couro e tez bronzeada, me disse assim: Minha menina, você esqueceu o mais importante. Você desaprendeu a amar o caminho. Olhei bem no olho dele e respondi: Meu anjo moreno, onde perdeu suas asas? Por acaso essa armadura de couro protege o seu coração? O meu foi esquartejado antes que eu começasse a andar por essas terras. Como amar o caminho sem ter coração? É o mesmo que querer voar sem asas... O anjo não disse mais nada, mas tornou-se meu companheiro de viagem e procura por suas penas e seus pecados mais doces. Não fala muito, mas mantém uma serenidade que me faz dormir de vez em quando...
A lua continua gritante no céu desse quarto que pressinto ser meu (meu?), mas temos que tomar algumas decisões e não tem sido fácil. Para os homens (sejam eles anjos ou demônios) tudo é mais fácil. Mas para nós, mulheres (sempre guerreiras) tudo é lume de faca, de punhal sem corte. De uma maneira ou de outra, saímos mais do que feridas...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010




Liébe querida,
Você me pergunta o que é o seridó e onde fica...

O seridó é uma região bastante árida que fica no interior do Rio Grande do Norte. Tem pouquíssimas chuvas durante todo o ano, mas isso faz a diferença nesta região. As pessoas que nasceram nas cidades que fazem parte do seridó são irmanadas, como se tivessem o mesmo sangue. São fortes, determinadas e amáveis. Amam a terra em que nasceram com paixão. Às vezes, precisam ir embora, mas um dia voltam, nem que seja para visitar parentes e amigos e geralmente voltam na época da festa do padroeiro da cidade.
O seridó tem rios temporários,apenas em alguns meses do ano correm águas em seus leitos. No restante do ano eles viram possibilidade de plantio para alimento do corpo e da alma. Tem serras, cordilheiras lindas, tem cercas feitas de pedras, colocadas uma a uma pela mão calejada do agricultor. Tem novena, tem sino repicando chamando as pessoas para a missa das seis horas.
No seridó tem festa nas ruas quando chove, tem barragens feitas para armazenar água, tem feira livre, tem tocador de sanfona e escrevinhador de sonhos. Tem grandes homens e grandes almas. Tem espinhos, mais que flores. Tem pedras, mais que verde. O tempo é cinza, o calor insuportável. As noites são serenas. Algumas vezes no ano, tem trovoadas e rios botando cheia.
As pessoas são bonitas, bondosas, embora tenham na pele e nos olhos a secura do sertão. Mas é um sertão amado, agraciado, forte, de homens que lutam mas que também sabem chorar com os olhos e com a alma.
O seridó é nossa pequena pátria, é um pedacinho esquecido nos cafundós deste nosso Brasil. Mas é lindo, é nosso, é uma parte de cada um de nós, seridoenses.
Mas o sertão não é só paisagem, o sertão é um modo de viver.

Vou, talvez cansada sobremaneira, de algumas farpas menos polidas, de algum tropeço mais sangrento, gangrenado pelo tempo. Perco as linhas e os arrecifes, torço e retorço pequenos novelos guardados dentro de um baú de coisas vãs e doídas, talvez bonitas ou espaçosas demais.
Vou, guardando os passos, olhando de soslaio para o poente, pois não me interessa se desço ao sul ou se parto em três o bolo de mel que trago no bizaco, feito de tecido epitelial.
Mas vou, já lhe disse que vou. Não sei ao certo se vou chegar, se terá algum vulto secular espiando de longe, olhos secos de poeira, coração na mão... Não sei se será chegada ou uma nova partida, pois ao atingir a subida, a vista se alonga indefinidamente...
Vou, faltando alguns apetrechos para o descanso, mas levo ópio, mágoas, choro e um lençol de cobrir estrelas, linha para costurar cansaços e música para adormecer.
Vou sem voz, sem sons, sem choro, já não sou inteira, alguma coisa teria que faltar nesse solo seco.
Vou porque me prometi, vou porque preciso ir, me livrar de certas tolices, porque minha vida não é bela, não tem rosas nem gerânios, tudo é cinza, seco, murcho, não tem raiz.
Vou porque a amo mesmo assim, sem nenhum atrativo mais aparente, como a um poeta morto que nada mais espera, como a um cinto de cilício penetrando a carne, como o vento seco da estiagem varrendo o chão do terreiro ao meio-dia.
Vou com as botas e a sabotagem. Com a minha ignorância e a dificuldade de te escutar porque me fiz surda e impenetrável.
Vou, e não me siga, não me olhe, não me reconheça. Nem hoje, nem amanhã, nem nunca.
A minha desilusão é minha e só minha. Não ouse sequer me denunciar.
Vou, porque preciso me reinventar.