Então, foi realmente uma
mentira. A mentira mais escabrosa que já inventei na vida. Claro que
não me arrependo de nada. Usei a mesma tática dele, disse que
estava morrendo de saudades, que se ele viesse eu me jogaria aos seus
pés. Planejei tudo tim tim por tim tim. Maldosamente. Ele iria me
pagar todas as noites insones e chorosas. Cada pedacinho de
sofrimento. Vesti meu melhor vestido, aquele, que deixa meus seios
lindos e eu sei que ele adora. É claro que ele veio correndo,
prometi e jurei tesão imenso. Disse que não conseguia nem dormir de
tanto desejo. Homem adora ouvir isso, que a mulher tá subindo pelas
paredes de tesão por ele. E ele veio sim, correndo. Marquei o
encontro no café do centro, para ficar mais longe e de difícil
acesso para ele que morava bem distante. Cortei meu cabelo, pintei as
unhas, perfumei-me e ei-lo que caminha em direção ofegante, suando
em bicas. Cruzei as pernas e pensei: Hoje ele me paga! Chegou e
deu-me um beijo na testa. Sentou e pediu uma cerveja. Aqui só tem
café querido – comecei o martírio. Ele odeia café. Ele apenas
sorriu e pediu uma água. Ai que ódio, água tinha em qualquer
boteco, até na farmácia. Enquanto ele me perguntava pela família,
faculdade, amigos em comum, eu cruzava e descruzava as pernas, de
forma que minha calcinha aparecia de relance e ele começou a ficar
visivelmente nervoso. O garçom trouxe a água que ele tomou
sofregamente. Passei as mãos no cabelo, molhei os lábios com a
língua, fiz todas as caras e bocas que podia e sabia. Até que ele
me olhou bem nos olhos e disse: vamos sair daqui, ir pra um lugar
mais tranquilo? Claro que eu topei. Fazia parte do plano. Eu queria
vê-lo implorar por mim. Pedir, chorar, ajoelhar-se aos meus pés.
Dizer que me amava, que eu era a mulher da vida dele. Que aquela
piranha que ele saiu no fim do mês passado não representava nada.
Eu iria pisar com meu salto agulha no orgulho dele. Então fomos pro
motel mais próximo. Pedi a suíte mais cara, eu queria que ele
sentisse no bolso também. Minha vingança abordava todos os lados.
Ele nunca me levava a um restaurante ou barzinho mais chique. Era
sempre os mesmos. Nem uma decoraçãozinha mais fashion. Nada. Mas a
piranha ele tinha levado pro melhor restaurante da cidade. Ia me
pagar com juros e correção monetária. Disse a ele que iria tomar
um banho e que ele me esperasse. Tomei um belo banho, vesti meu
espartilho preto e voltei ao quarto. Ele arregalou os olhos de susto
e desejo. Veio ao meu encontro, pegou-me pela cintura e me puxou de
encontro ao peito. Puxou meu cabelo à altura da nuca e sussurrou no
meu ouvido: Eu gosto tanto de você...Pronto, isso bastou para eu
esquecer vinganças, salto agulha e piranhas. Amoleci em seus braços
e acordei sozinha. Quando é que eu vou aprender?
CERI TOH
Ceri toh quer dizer Seridó na língua indígena. O historiador Câmara Cascudo escreveu que Ceri toh significa sem folhagem, pouca folhagem, pouca sombra ou cobertura vegetal, segundo Coriolano de Medeiros...Também ouvi de meu pai que significa paisagem desnuda e gosto mais dessa expressão.
Segundo os judeus significa "refúgio Dele", originada da palavra hebraica she ´eritó, assemelhando-se muito com a palavra Seridó.
De qualquer forma, esta palavra está impregnada em mim desde tempos imemoriais...
Segundo os judeus significa "refúgio Dele", originada da palavra hebraica she ´eritó, assemelhando-se muito com a palavra Seridó.
De qualquer forma, esta palavra está impregnada em mim desde tempos imemoriais...
segunda-feira, 11 de julho de 2016
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
MEMÓRIAS
O que de mais triste se ouvia na pequena cidade era o sino da igreja a anunciar os mortos. A tristeza tomava conta da casa, do quintal, assomava à soleira da porta. Entranhava-se pelas unhas, roupas, suores, cabelos e anuviava os olhos. Eu olhava o muro da casa descascado. Meus olhos de menina viam o belo onde havia cascas de feridas. Subia feito equilibrista. Olhava o enterro de cima da casa. As meninas mortas tinham minha idade. Morreram abraçadas. Foram enterradas juntas, lado a lado, pois que amizade não tem fim com a passagem. Brincavam juntas pelo cemitério quando todos dormiam. Colhiam flores como quem colhe algodão mocó, branquinho, branquinho. Riam-se tanto e corriam entre os mortos de cá, visto que morrer depende de que lado se está. Eram meninas libertas do corpo: podiam voar. E voavam. Eu vi. Voavam ao som da canção que as perpetuou em memória: “se ouvires a voz do vento, chamando sem cessar...”
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
CARTA POÉTICA
Como te dizer: noite, morte, escuridão se isso ainda é o que dá sentido a tudo? Teu nome estanca o assovio, o assombro e desperta dois nítidos corpos que atravessam a sala deixando unguento e matizes como rastros do que foi.
Não quero procurar-te como quem se perde, ameaçá-lo como quem espera uma concretude. Sempre te convences. Mas te enganas. Esse inquietante amor abriu-me portas pesadas onde me abrigo. E dentro dessa solidão passeio como quem colhe lírios. Fui mais completa quando tudo me faltou. Encontrei-me quando não mais me reconheci.
Olha ao teu redor...tudo é escombro. Porque és feito de mentira e de soberba. E mesmo que te retorcesse e sangrasse, nem mesmo assim te adiantaria. Porque os teus arredores são de escuras amarras, de amargas partidas, de negras funduras. Não sabes ainda dos teus adversos. Mas quando olhares teus arredores, quando eu te disser “te sei” e quando me disseres “te vejo”, te darás conta do grande e aterrorizante aguilhão que te aprisionas. E nada disso te adiantará. Porque serei tua dor, tua escrita, teu espinho, um punhado de sal sobre teu corte.
“E não haverá mais nada, negro amor.”
terça-feira, 11 de setembro de 2012
REENCONTRO

Marquei o encontro para às três da tarde. Não gosto de
esperas, não sei o que fazer com as mãos deixadas sobre as coxas em total
abandono. Minhas mãos me denunciam e eu não gosto de esperas. Sentei-me no
banquinho da praça e aguardei que ele
aparecesse na esquina da rua com as mãos cheias de papel. Estou escrevendo um
novo romance – confabulou no telefone – gostaria de te mostrar. Penso que este
homem é louco. Enquanto vejo-o se aproximar, lembro do dia em que o conheci.
Cara de escritorzinho barato. Desses que fumam o dia inteiro e bebem coca-cola
sem gás. Dono de um sorriso mágico e de um beijo fantástico. Preciso
experimentar – pensei. Dizem que escritores tem um quê a mais. Uma palavra
decorada do livro de Clarice para dizer naquela hora em que fica difícil
respirar. A frase queima e arrepia a pele. Ele também leu muitos livros sobre o
amor, mais ainda sobre sexo. Deve saber das coisas esse menino com cara de
homem.
Chegou e jogou os papéis no meu colo. Levei um susto, mas ele
sempre foi assim- estabanado com as coisas. Nunca com o corpo. Este, ele
conhece milímetro por milímetro. E o que fazer com os milímetros. Dono de uma
voz rouca quando excitado. Hálito de menta. Cigarro de menta. Lembro do cheiro
da pequena biblioteca onde nos beijamos a primeira vez. Cansei de esperar que ele me beijasse. Enquanto me mostrava sua coleção de
revistas, eu fui olhando hipnoticamente para sua boca e já nem ouvia o que ele
falava, minha imaginação ia à mil imaginando o que aquela boca poderia fazer
calada. Beijei-o demoradamente e fui empurrando-o contra a estante
de livros. Colei em seu corpo. Senti seu desejo. Então escritores também
desejam ardentemente na vida real, que bom. O beijo demorou demais e me desvencilhei
daquela boca com uma desculpa qualquer.
O texto é realmente bom – falei pra quebrar o silêncio. Pedi
um café, ele um suco. (Um suco, oh Deus). Perguntei se eu estava no romance,
ele corou. Sim, eu era a prostituta do livro. Logo uma prostituta? Corei pensando
nas vezes em que namoramos em locais públicos. Sim, ele era um louco e nos
amávamos. Nos bares, nas esquinas, nos becos, nos banheiros públicos. Éramos
loucos, jovens e loucos. Amávamos as noites, os dias, o apartamento. Cheiro de
amor em tudo, até nos livros. Líamos juntos e terminávamos na cama. No
banheiro. No sofá da sala. A barba grisalha mostra que envelheceu um pouco.
Ficou mais bonito. Sua perna roça de leve a minha por baixo da mesa. Olho para
ele e sorrio. Ele baixa os olhos. Sempre me encantou esse baixar de olhos.
Estamos velhos para isso, você não acha? Você continua com os olhos de Capitu –
ele me diz sorrindo. Conversamos sobre a vida, sobre as banalidades depois que
a gente se separou naquela noite fria no lançamento do seu primeiro livro de
poemas. Ele me apresentou um amigo. Eu lhe apresentei uma amiga. Saí cedo, ele
tarde. O amigo me deixou em casa. Minha amiga terminou na casa dele. Na cama
dele. Não nos falamos mais durante anos. Não falamos sobre isso. Meu café
esfria na xícara. O suco esquenta. Eu começo a olhar hipnoticamente aquela boca
que fala, fala e eu nem escuto mais o que diz. E como eu não sei esperar...
sábado, 7 de maio de 2011
CARTA PARA ELA

Mamãe,
Amanhã, dia das mães nos reuniríamos todos em casa. Café da manhã regado a conversas bobas e muitas risadas. Sua presença, imperceptível, fazia toda a diferença. O problema é que nem dávamos conta disso. Preocupação, só com papai que sempre teve problemas cardíacos. Vivíamos "preparados" para quando ele partisse. Deus tinha me dado a oportunidade de passar o último dia das mães com a senhora. No domingo, havíamos ido à missa das mães e a senhora e papai renovaram os votos do matrimônio...Como nosso Deus é bondoso e amoroso por nós! Não sabíamos que a senhora partiria quatro dias depois. Lembro que a senhora se confessou e comungou. Renovou os votos consagrados do matrimônio com papai. Depois ficou vermelha com o beijo na boca que ele te deu na nossa frente, lembra mãe? Deus te preparou para a partida não foi mãe?
Pois é, parece que foi ontem e no entanto já partiste há dezoito anos...
Na quarta feira, dia 13 de maio, dia de Nossa Senhora de Fátima, almoçávamos juntos...A senhora ralhou comigo porque eu não comia nada (lembro que eu estava suspeitando de estar grávida) e eu reclamei que a senhora também não podia estar comendo toda aquela comida com tanta gordura e sal...a senhora riu e desconversou...depois o desepero com sua dor de cabeça, a pressão nas alturas, os médicos, a ambulância, o hospital, a UTI...não falavas coisa com coisa e eu nem sei de mais detalhes e nem quero saber, o que sei é que desde aquele dia me dói não ter te dito sempre e em todos os momentos do meu amor pela senhora. Do quanto a admirava. Do quanto queria ser alguém na vida pra senhora sentir orgulho de mim...
A sua ausência é um espinho de algaroba nas nossas vidas, uma dor doce e profunda, um mistério de soluços e ausências...um eterno caminhar sem ter pra quem, uma luta sem ter mais sentido, mas a senhora me criou forte e corajosa.
Hoje e amanhã, meu coração relebra o filme da sua partida. E chora, doído de saudade. Mas não é revolta mãe, é saudade do aconchego, do seu cheiro, do seu carinho, de vê-la tricotando, assistindo a novela, tomando uma cervejinha conosco ou fazendo o café da tarde, onde reunia filhos, amigos, vizinhos e quem chegasse na hora. Mãe, com sua vida simples e humilde, nos ensinaste a sermos bons e tolerantes, a sermos caridosos e gentis com os outros. Obrigada por tudo, por todo seu amor e por todo seu esforço para dar conta dos talentos que Deus te deu para cuidar aqui na terra, nós, teus filhos. Não se perdeu nenhum mãe, obrigada por isso!
Que nesse dia das mães a senhora sinta ai no Céu todo o nosso amor.
Que Deus te guarde sempre...
Até qualquer dia desses...
bjos Mãe querida!
quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Não, não venho de família abastarda e de nome bunito. Nem sou fia de algum coroné da região ou barão canavieiro. Sou uma simples Maria da Silva. Nome comum, qui tem chero de vida, de suor e lida. Nasci numa noite escura e dona Tereza, parteira de casa em casa, me ajudou a atravessar as carne escura da minha mãe. Desde então me sinto esquisita. De pá virada. Doida de pedra, como dizem por ai...
Só porque gosto de andar à noite, sentindo o vento frio me bater no rosto? Só porque falo com os bichos e as plantas quando passeio ao ridor da vazante? Conheço gente com custume mais isquisito qui o meu e ninguém fala nada.
Dona Gertrudes, filha do Capitão Nelson anda peladinha dentro de casa em noites de lua cheia e ninguém diz nada. Mas eu sei qui é por queimar demais pelo vaqueiro Justino, um negão de dentes brancos e pele brilhosa qui trabalha como pião nas terras do capitão. O pai nem sonha qui é purisso. Já mandou chamar até doutor da capitá pra tratar do fogo da filha...Se eu fosse esse doutor, acabava agorinha mesmo com essa doença dela. Mas é filha do Capitão Nelson, ninguém fala nada.
Dona Florinda, mulher do delegado, tem mania de reza e de vela. Todos os dia tem qui ir à igreja acender vela prus defuntos e respingar água benta na testa. Não sem antes passar pela barbearia de Seu Godofredo. Sempre faz a caridade de levar um bolim de cenoura pro pobe coitado que não tem mar ninguém pur ele nesse mundo. Todos os dia. Faça sol, faça chuva e ela tá lá, na barbearia do coitado. Dispois, só dispois de comido o bolo, ela vai à igreja pra falar suas oração e acender suas vela. Mas ninguém diz nada purque é mulher do delegado, ninguém diz nada...
Nas arruanças da cidade todo mundo senta nas calçadas à noite para falar da vida alheia. É um chafurdo só. Ainda bem queu nasci nas beiras de açude de seu Lindolfo e daqui nunca sai. Meu pai foi embora inquanto eu ainda era bem piquinininha. Minha mãe dizia qui ele queria fazer coisa feia com ela, coisa do demo e que ela nunca aceitô. Ele se foi dizeno qui ela era feiticêra, qui num era mulher. Depois qui ela morreu, fiquei morando suzinha, suzinha não, eu e Deus.
Entonce fico aqui oiando esse hurizonte cheio de pó e pedra, de silêncio e sulidão. Num quero ser biata, num quero casar, num quero amancebar. Só quero sair purai de noite, na lua cheia, passiano pelos terreiro, ouvindo as curuja, até essa febre baixar. Se alguém acha qui é loucura ou quintura de mulher sozinha, num ligo. Sou filha de Zé ninguém, minha mãe morreu faz tempo, num devo nada a ninguém.
Só porque gosto de andar à noite, sentindo o vento frio me bater no rosto? Só porque falo com os bichos e as plantas quando passeio ao ridor da vazante? Conheço gente com custume mais isquisito qui o meu e ninguém fala nada.
Dona Gertrudes, filha do Capitão Nelson anda peladinha dentro de casa em noites de lua cheia e ninguém diz nada. Mas eu sei qui é por queimar demais pelo vaqueiro Justino, um negão de dentes brancos e pele brilhosa qui trabalha como pião nas terras do capitão. O pai nem sonha qui é purisso. Já mandou chamar até doutor da capitá pra tratar do fogo da filha...Se eu fosse esse doutor, acabava agorinha mesmo com essa doença dela. Mas é filha do Capitão Nelson, ninguém fala nada.
Dona Florinda, mulher do delegado, tem mania de reza e de vela. Todos os dia tem qui ir à igreja acender vela prus defuntos e respingar água benta na testa. Não sem antes passar pela barbearia de Seu Godofredo. Sempre faz a caridade de levar um bolim de cenoura pro pobe coitado que não tem mar ninguém pur ele nesse mundo. Todos os dia. Faça sol, faça chuva e ela tá lá, na barbearia do coitado. Dispois, só dispois de comido o bolo, ela vai à igreja pra falar suas oração e acender suas vela. Mas ninguém diz nada purque é mulher do delegado, ninguém diz nada...
Nas arruanças da cidade todo mundo senta nas calçadas à noite para falar da vida alheia. É um chafurdo só. Ainda bem queu nasci nas beiras de açude de seu Lindolfo e daqui nunca sai. Meu pai foi embora inquanto eu ainda era bem piquinininha. Minha mãe dizia qui ele queria fazer coisa feia com ela, coisa do demo e que ela nunca aceitô. Ele se foi dizeno qui ela era feiticêra, qui num era mulher. Depois qui ela morreu, fiquei morando suzinha, suzinha não, eu e Deus.
Entonce fico aqui oiando esse hurizonte cheio de pó e pedra, de silêncio e sulidão. Num quero ser biata, num quero casar, num quero amancebar. Só quero sair purai de noite, na lua cheia, passiano pelos terreiro, ouvindo as curuja, até essa febre baixar. Se alguém acha qui é loucura ou quintura de mulher sozinha, num ligo. Sou filha de Zé ninguém, minha mãe morreu faz tempo, num devo nada a ninguém.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
REENCONTRO

Foi tão bom te reencontrar, tão doce sorver poesia da tua boca e beijos doces dos teus olhos tristes... Perdoe-me pela falta de jeito de amar o mundo. Eu não saberia jamais não me entregar às paixões ou seja lá o nome do que me toma nesse momento. Sei apenas que é tão violento que já me assusto com a possibilidade de destruir-me. Sim,os homens não sabem mais amar uma mulher, mas isso é apenas um detalhe nessa intricada rede de desejos.
Talvez tenha sido teus olhos úmidos de sal que me deixaram assim, em carne viva. Talvez porque a minha ânsia calou-se diante da tempestade que se anunciou e caiu sobre mim. O que é isso que pressinto ser um todo e me deixa dividida em tantas pequenas partes? O que é isso que, lume ou centelha, leva-me somente em direção ao caos?
Talvez não seja lícito falar-te dessa coisa vermelha, que escorre, sanguinolenta, como um cilício a perfurar a carne. Talvez não compreendas que, cedo ou tarde, a dor também há de trespassar-te como um alvo ilícito, pois que tudo que é rubor e face saberá das chagas dessas trevas que alguns dão o nome de amor.
Esta ferocidade, este olho mal-assombrado que me guarda, estas mãos enormes como armadura, levo-os comigo. Sei que não te deixarei nenhum atalho, porque assim será sempre. Assim aconteceu comigo, assim há de acontecer-te. Não haverá um atalho, somente um abismo que agigantar-se-á quanto mais te desesperares para fugires dele.
Talvez tenha sido teus olhos úmidos de sal que me deixaram assim, em carne viva. Talvez porque a minha ânsia calou-se diante da tempestade que se anunciou e caiu sobre mim. O que é isso que pressinto ser um todo e me deixa dividida em tantas pequenas partes? O que é isso que, lume ou centelha, leva-me somente em direção ao caos?
Talvez não seja lícito falar-te dessa coisa vermelha, que escorre, sanguinolenta, como um cilício a perfurar a carne. Talvez não compreendas que, cedo ou tarde, a dor também há de trespassar-te como um alvo ilícito, pois que tudo que é rubor e face saberá das chagas dessas trevas que alguns dão o nome de amor.
Esta ferocidade, este olho mal-assombrado que me guarda, estas mãos enormes como armadura, levo-os comigo. Sei que não te deixarei nenhum atalho, porque assim será sempre. Assim aconteceu comigo, assim há de acontecer-te. Não haverá um atalho, somente um abismo que agigantar-se-á quanto mais te desesperares para fugires dele.
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